DO ARRAIAL DO PORTO
DO ARMAZEM AO POVOADO DE ENTREMONTES
Seus Antigos
Moradores e o fim de uma lenda imperial.
Maria Graças Feitosa
Alves
PORTO DO ARMAZEM
Entre
as antigas vilas, e hoje cidades alagoanas de Pão de Açúcar e Piranhas,
ribeirinhas do São Francisco, na altura da antiga légua 342 do majestoso rio, na
barra da ribeira do Capiá (anteriormente ribeira dos Cabaços ou do Armazém), defronte
de um grande serro de pedras vermelhas e lascadas, num de seus pontos de maior
beleza natural, está edificado sobre uma restinga de cascalhos, aos pés dos
morros imediatamente atrás, em terras de pouca planície, e abafada entre
montes, o arraial pequeno e de pouca importância desde sempre, o hoje povoado de
Entremontes. [1]
A
ribeira do Capiá não é perene, seu leito só surge por ocasião das grandes
chuvas de janeiro que abastecem as suas nascentes que ficam para o Norte, nos
limites de Alagoas com Pernambuco. No
entanto, sendo um afluente do São Francisco, foi um fator importante da
natureza para desenvolver o povoamento daquele sertão, já que diversos
criadores de gado e agricultores se estabeleceram ali, ao longo dos anos e de seu
curso.
Já
as terras das margens baixas do rio São Francisco, pela facilidade do acesso
fluvial, foram sempre de uma grande vantagem aos ribeirinhos e sertanejos, e por
isso, acharam os antigos, que antes do encontro dos dois rios, aproveitando um
grande rochedo que se projeta para dentro do rio, e que serve de encosta para
as embarcações, fosse este o local entre montes, o propício, e o escolhido para
um porto onde; “os barcos, canoas e até as chatas ancoravam”, na faina de carrego e descarrego de “mercadorias e produtos do lugar e das diversas partes da província
de Alagoas e do Brasil, e até do exterior”. [2]
Os “Alves Feitosa”, de antiquíssima passagem por Penedo e pelo Rio
São Francisco, e que dali partiram para todo o Nordeste[3], e os “Gomes
de Sá”, descendentes de David Gomes de Sá, o irmão do Capitão-mor Antonio Gomes
de Sá, que foi procurador da opulenta e poderosa Casa da Torre, de Garcia
D’Ávila, e Comandante Geral da Capitania de São Francisco.
Chegaram à região por
volta do fim do século XVII e o princípio do séc. XVIII. Assim estes seriam
alem de grandes criadores de gado, os primitivos proprietários das terras da
região do futuro Porto do Armazém.
A vila, hoje cidade da Mata Grande, por sua vez, era então, o
povoado mais próximo e importante, como freguesia, e sede da comarca. Sem ser
ribeirinha, (está estabelecida já no alto sertão), em agradável serra, bem servida
de nascentes e fontes de água. Era das mais antigas vilas da região e lá era o
local onde vivia a família Brandão.
OS
BRANDÕES
Não sabemos as origens dos Brandões, antes de estabelecidos na
Mata Grande. Indícios há que seriam oriundos de Sergipe.
Mas antes, ainda no século XVIII, já existiam em Pernambuco os
mais antigos deste apelido; o capitão Antonio Malheiros Brandão, natural de Braga,
que teve muitos bens e outras fazendas de gados, e era nobre, no dizer de
Borges da Fonseca.
Serviu a câmara de Goiana, e casou com Dona Ana de Lima.[4] E
também Francisco Malheiros Brandão, senhor de uma sesmaria que requereu em
1680, e que “começava das cabeceiras do
"Rio-Grande", ente norte e sul, prolongando-se pelo oeste entre os
rio Pajeu e o riacho Panema Grande, confrontando com terras do coronel
Francisco Dias da Silva”. [5]
Na Mata Grande os primeiros que lá encontramos são os que procedem
de Antonio Manuel de Jesus (Brandão) e Josefa Maria de Assunção, casal tronco
de uma muito extensa família sertaneja, que inclui também um ramo notável em Viçosa.
Anacleto de Jesus Maria Brandão era um dos filhos do casal. Ele nasceu
em 13 de julho de 1798 na Mata Grande e casou em 24 de novembro de 1810, na
Capela da Mata Grande, então filial da freguesia de Tacaratú (PE), com dona
Maria Francisca da Conceição, filha do português Manoel Ivo dos Anjos e
Alexandrina Maria. Tiveram de acordo com seu testamento, somente filhos homens.
No ano de 1841 ele teria adquirido terras junto ao referido porto
da margem do Rio São Francisco, na altura da légua 342, e para ali se transfere
com a família, em busca
de um melhor local para comercializar suas mercadorias. O chefe da família já
tinha idade, mas os filhos eram todos ainda jovens. Eles aí já encontram
algumas casas, e constroem para guardar as mercadorias um armazém, que passa a
denominar o novo local; o Porto do Armazém.
O
Tenente Coronel Anacleto Brandão, com “gênio lidador e incansável”, impulsionou
o progresso do lugar, construindo outras casas. Terminou com um seu filho, o padre
Mathias, e mais alguns donativos dos outros filhos, e alguns particulares, a grande
e elegante capela de Nossa Senhora da Conceição, (que em seu modesto início, o
templo foi uma promessa de um devoto restabelecido do cólera-morbo) e o
cemitério do arraial.
Por decreto de 1866 foi nomeado Tenente Coronel Chefe de
Estado do Comando Superior da Guarda Nacional.
Ele encaminhou bem três dos seus filhos nos estudos, um foi médico,
outro padre e outro advogado. Ele foi grande fazendeiro, proprietário de muitas
terras, e possuía uma movimentada casa comercial, exportadora de couros, solas
e peles, que depois de sua morte foi comandada por seu filho solteiro, o Major Francisco
Henrique Brandão.
No
ano de 1859, no dia 22 de outubro, as 3.1/2
horas da tarde, Anacleto Brandão recepcionou para um rápido jantar em
sua casa, o Imperador Dom Pedro II, que pelo Rio São Francisco voltava da
visita que fizera a cachoeira de Paulo Afonso. O imperador anotaria em seu
diário pessoal, que no povoado “jantamos
aí na casa de um (sic) Anacleto
Brandão cuja família é quase tudo nesta povoação, sendo um dos filhos o
capelão, outro o médico, e o outro oficial da Guarda Nacional, tendo agora o
médico pedido 50$000 por dia ao Presidente da Província para cuidar dos doentes
de Piranhas de Baixo, e as quatro (horas) fomos ver a capela...”.[6]
Por esta acolhida ao
Imperador, ele foi condecorado com a Ordem da Rosa. A visita durou somente
cerca de uma hora e meia em Entremontes, já que ás 17 horas da mesma tarde,
largou o vapor Pirajá, com Dom Pedro II a bordo, que pernoitou em Pão de
Açúcar. Um dos jornalistas que acompanhou o Imperador informaria também, que
ali em Entremontes, “predominava uma
família cujos oitos membros se auxiliavam reciprocamente, cada um com uma
profissão diversa”. [7]
Falecido
em 30 de janeiro de 1871, o velho patriarca Anacleto Brandão, “com fama de muito honrado e de bom pai de
família”, foi sepultado no altar mor da capela, a mesma que construiu erguida
por detrás das casas do arraial, e com a fachada virada para o rio.[8]
Na época quando faleceu, o
povoado que em 1841 contava 46 casas, já alcançava mais de 100 casas, sendo a
dele assobradada. Habitavam ali no arraial, mais de 300 pessoas, e dentre
estes, muitos eram seus parentes.
O local já possuía escola de primeiras letras
para meninos, e outras casas de comércio, que “prosperavam entretendo comunicações com os povoados vizinhos, e fazendo
suas provisões no Penedo e principalmente na Bahia”. [9] Entretanto, o Imperador
anotaria também em seu diário, que a loja de seu hospedeiro, rendia por ano
entre 300 e 400 contos, e que o comercio local era menor do que o de Piranhas.
Boa
parte destes moradores de Entremontes procedia também da vila da Mata Grande. Dentre estes podemos lembrar as famílias de Manoel
Martins Lisboa e Clara Maria da Luz, Manuel de Aragão, Eufrásio Jose de Moraes
e Maria Rosa dos Prazeres (Brandão e Veiga), Manoel Inocêncio e Caetano Donato
da Veiga, Caetano de Sá e Brígida Inácia, Pedro Antonio de Jesus e Joana
Vieira, Antonio Fernandes Bezerra, Manoel Cipriano de Sá e Jacinta Maria da
Soledade, Francisco Manoel da Veiga e Maria Rodrigues da Soledade, Bento
Rodrigues Delgado e Ana Teresa de Jesus (Brandão), Manoel Felipe Santiago e
também o alfaiate do Anacleto e do povoado, Alexandre Torquato de Carvalho.
Certamente
estariam alguns destes casais e familiares, no meio do povo que com o maior
entusiasmo se manifestou, no dia 18 de outubro, correndo pela margem do rio, a
saudar com vivas e foguetes, quando as 10 ¼ da manhã, passou defronte da vila,
o vapor Pirajá a conduzir o Imperador. Reparou o próprio Dom Pedro II, que mulheres
dessas paragens, usavam camisas de crivo.
E notaram os outros viajantes, que os
homens da região do Rio São Francisco eram todos de estatura de regular, mas
que as mulheres do sertão, de Penedo para cima, com a “exceção de uma ou outra senhora mais distinta, as filhas daquelas
paragens usam exclusivamente de xales vermelhos, de sorte que apinhadas nas praias
a saudarem o monarca ou correndo sobre os rochedos para virem encontra-lo
simulavam listras movediças de púrpura que se estendiam”. [10]
ENTREMONTES
Os
filhos do velho Anacleto, também foram agricultores na região, e grandes
proprietários de terras e gados. Dentre estes, até o Padre Mathias José de
Santana Brandão foi também senhor de grandes extensões de terras. Nascido em
1821 ele faleceu em 1869, sendo sepultado na capela, (hoje) ao lado dos pais.
Porem, muito antes de morrer, em 20 de janeiro de 1858, quase dois anos antes do
Imperador passar pelo povoado, o padre Mathias Brandão levou ao
registro paroquial,[11] as suas terras: uma propriedade
chamada de Entremontes, que houve
por compra a Elias José da Fonseca, jogando por terra a lenda muito mal contada,
e que é aqui transcrita exatamente conforme corre de forma incorreta, entre os
descendentes do Coronel Anacleto de Jesus Maria Brandão e o povo da região:
“Registra a historia oral, transmitida de
geração para geração, que o nome dado ao vilarejo foi uma homenagem feita por
Dom Pedro II quando por lá passou, em demanda a Paulo Afonso. Ele achou o
lugarejo muito bonito por estar encravado entre montes, tendo o rio a separar
Alagoas e Sergipe. Ordenou então que fosse registrado o fato de que a partir
daquela data, o lugarejo seria batizado de Entre os Montes, que hoje é Entremontes,
pertencente ao município de Piranhas”. [12]
Esperamos
assim, além de termos lembrado a história da pitoresca Entremontes, seu morador
principal e alguns de seus vizinhos, termos contribuído para desmitificar a
lenda de que teria sido o Imperador, quem batizou e alterou o nome do antigo Porto
do Armazém.
[1]
HALFELD, Fernando. Relatório Concernente à Exploração do Rio de S. Francisco,
desde a Cachoeira de Pirapora até o Oceano Atlântico. In Atlas e Relatório
Concernente à Exploração do Rio de S. Francisco, desde a Cachoeira de Pirapora
até o Oceano Atlântico durante os anos de 1852 a 1854. Rio de Janeiro.
[2]
SILVA, José Calixto da. Manuscrito Inédito sobre a Família Brandão. Gentileza
de Etevaldo Amorim.
[3]
MACEDO, Heitor Feitosa. Família Feitosa: Origem.
[4]
BORGES DA FONSECA, Nobiliarquia Pernambucana.
[5]
Plataforma Silb: http://silb.cchla.ufrn.br/ (sesmarias)
[6] D.
Pedro II – Diário da Viagem ao Rio São Francisco, Anuário do Museu Imperial,
1949.
[7]
Silva, José Vieira de carvalho e , Memórias da Viagem de S.S. M.M. I.I.,
Revista do IHGB Tomo 22 – 1859.
[8]
Brandão, Agostinho de Neville. Genealogia da família. Manuscrito Inédito. 1859.
[9] Silva,
José Vieira de carvalho e , Memórias da Viagem de S.S. M.M. I.I., Revista do
IHGB Tomo 22 – 1859.
[10]
Silva, José Vieira de Carvalho e , Memórias da Viagem de S.S. M.M. I.I.,
Revista do IHGB Tomo 22 – 1859.
[11]
Registro Paroquial de Terras – Pão de Açúcar. 1857. “Aos dezoito dias do mês de janeiro de mil oitocentos, digo, do ano do
Nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e cinquenta e oito,
nesta Vila e Freguesia do Santíssimo Coração de Jesus de Pão de Açicar, em casa
de minha residência compareceu perante mim o Padre matias José de Santana
Brandão, declarando-me por meio de dois exemplares, na conformidade do, digo,
segundo a Lei e regulamento das terras públicas número mil trezentos e dezoito,
de trinta de janeiro de mil oitocentos e cinquenta e quatro, que possui por
indiviso nas terras do Entremontes, uma posse comprada a Elias José da
Fonseca, e nada mais disse. E concluida por esta forma a presente declaração,
numeradas e rubricadas por mim ditos exemplares, ficando o outro em meu poder
na conformidade do respectivo Regularmento. Do que para constar abri este
registro, em que me assino. Pão de Açúcar, 15 de janeiro de 1858, Vigário
Antonio José Soares de Mendonça.
[12]
Dias, Maria das Graças Ataíde. Na Correnteza do Rio, Ideia – João Pessoa, 2008,
pg.19.


