domingo, 8 de outubro de 2017

Duarte de Albuquerque e Rodrigues Delgado

"Duarte de Albuquerque e Rodrigues Delgado, de Pão de Açúcar, indicações para uma genealogia”. 
Maria das Graças Alves  
As terras da hoje cidade de Pão de Açúcar, nas margens alagoanas (do médio) Rio São Francisco, pertenciam em 1611 naturalmente aos índios Urumaris que as chamavam de Jaciobá, em razão do belo reflexo da Lua nas águas do rio.  Nos tempos de Dom João VI, ele fez uma doação de vasto território aos índios Urumaris, que no entanto, de suas terras foram expulsos pelos índios Xocós, que mantiveram para o local, o mesmo nome de Jaciobá 
Em tempos anteriores porem, foi Cristóvão da Rocha, que em 1643 tomou posse destas terras. No ano de 1660 uma sesmaria é doada ao português Lourenço José de Brito Correia. A partir destas datas, é que o  processo de colonização da região começou lentamente, com grandes fazendas de gados. Nossas atuais cidades começaram sua formação por volta de 1790, não como vilas, mas sim como precários povoados, onde viviam famílias todas em boas partes relacionadas entre elas mesmas e é claro, mestiçada com os índios. Fluxos de fazendeiros e agricultores vieram para a região, com origem em locais diversos.  
Por absoluta falta da documentação produzida (eclesiástica e judiciária) nos séculos XVII e XVIII, não temos notícias das origens e dos ancestrais  da maioria destes que lá chegaram.  Ao pesquisar nestas regiões precisamos juntar fragmentos. A documentação existente começa mesmo por volta de 1850.  Já então, que registros paroquiais nem pensar, temos usado fontes orais, relatos familiares, para pouco à pouco irmos juntando tudo que conseguimos para tirar do esquecimento algumas destas famílias.  
Certa vez pesquisando a nossa família paterna, toda em Portugal, nos deparamos com uma 11ª avó, pessoa simples, e nos veio o pensamento que norteia todas as nossas pesquisas: “será que em vida ela imaginou que um dia 200 anos depois uma sua descendente procuraria por ela?”. É este o nosso propósito. 
Assim a reconstituição destes troncos num passado anterior ao ano de 1850, urge ser refeita, mesmo com suas lacunas, através destas fontes disponíveis que são os livros dos Registros Paroquiais de Terras, os livros eclesiásticos (como referido, somente a partir de meados do século XIX) antigas memórias que preservaram algumas das tradições orais, jornais antigos e pesquisas e livros que tenham referências na região.  
Dentre os antigos agricultores na região, aparecem no século XIX, os Duarte de Albuquerque e os Rodrigues Delgados, duas parentelas entrelaçadas, proprietárias rurais em Pão de Açúcar e que apresentam indicações de que remontam as suas raízes a algumas gerações mais recuadas  no tempo e na região.   
Os Duarte de Albuquerque são um destes exemplos, já que embora surjam documentalmente no ano de  1857, percebemos claramente por estes documentos, que  eles estavam  entre os mais antigos povoadores da região, já que no ano referido, na condição de herdeiros do falecido Manoel Duarte de Albuquerque,  sua viúva, filhos e demais herdeiros  estavam estabelecidos numa propriedade  chamada Itororó ou Tororó.   
O filho deste casal, Antonio Duarte de Albuquerque , declarou em 4 de março de 1858, possuir uma parte de terra no local referido de Itororó, herança de seu finado pai, Manoel Duarte de Albuquerque . No mesmo dia ele declara também como sua, outra parte de terras no local denominado Lagoa de Pão de Açúcar, parte de terras estas, recebida como dote do finado sogro, Bento José Rodrigues Delgado e sua esposa Ana Teresa de Jesus.   
Antonio Duarte de Albuquerque foi casado com Maria do Espírito Santo ( ou Maria Saraiva de Mello)  filha de Bento José Rodrigues Delgado ( este já por sua vez, sobrinho do falecido Padre José Rodrigues Delgado) , e de sua mulher D. Ana Teresa de Jesus (Brandão), todos também com raízes em gerações também mais recuadas na região. Dona Ana Teresa era irmã daquele que foi a mais proeminente figura do povoado de Entremontes, o antigo Porto do Armazém, o Coronel Anacleto de Jesus Maria Brandão.  
Assim, a partir destes dados disponíveis, refizemos as ligações entre essa velha gente sertaneja:  
1 – Manoel Duarte de Albuquerque, proprietário das terras de Itororó c.c. Antônia Rodrigues do Bonfim, n. 1804-f.1891, filha de Nicácio José de Mello e Eufrazia..... Ele seria irmão do então já falecido Padre Antonio Duarte de Albuquerque, proprietário das terras da Lagoa das Antas, que pertenceu a sua provável irmã, Joaquina do Espírito Santo, mulher de Manoel Fernandes Sampaio, ramo que de forma ligeira, surge também nos Registros Paroquiais das Terras de Pão de Açúcar. .  
PAIS DE:  
1.1– Antonio Duarte de Albuquerque n. 1820/f. 1890 Pão de Açúcar, c.c  Maria ( do Espírito Santo, ou Saraiva de Mello ou Maria Rosa de Albuquerque) filha de Bento José Rodrigues Delgado (sobrinho do Padre José Rodrigues Delgado) c.c D. Ana Teresa de Jesus (Brandão)Pais de:  
1.1.1 – Maria da Glória Duarte de Albuquerque, n. 1850 em Pão de Acúcar. 
1.1.2- Francisca Duarte de Albuquerque, n. 1853, em Pão de Açúcar. C.c. Herculano Correa Leal , n. Traipú, SE,  carcereiro em Pão de Açúcar. Pais de:  
1.1.2.1 – José Correia de Albuquerque, artista, n. Pão de Açúcar, c.c. Aurora Carolina de Souza, filha  de João Hypolito de Souza e Maria da Gloria Soares. Pais de:  
1.1.2.1.1 – Aurora , n. em Pão de Açúcar, em 21.8.1901.  
1.1.2.2  – Odilon, nascido em  Pão de Açúcar, em 1893 
1.1.3 – Manoel Antonio Duarte de Albuquerque, n. 1854, em Pão de Açúcar. ( residente em Campo Alegre)  c.c. Silvina Rodrigues de Mello, filha de Josué Rodrigues de Mello e Coleta Maria de Barros. Pais de : 
             1.1.3.1 – América, que faleceu com 8 meses em 1895.  
1.1.3.2 -Josué Duarte de Albuquerque, n. 23. Abril de 1883, casado em 23 de abril de 1941 com Lindinalva de Castro Rifa, n. Penedo, filha de Alberto Silvino de Castro e Maria Rosa do Espírito Santo.  S.m.n 
1.1.3.3–  Liberalina de Albuquerque c.c. Manoel Soares Pinto, filho de Manoel Soares Pinto e Ana Maciel de Carvalho. 
1.1.4 - Ana Rosa de Albuquerque c.c. Jovino de Castro Riffa, funileiro, filho de Alberto Silvino de Castro e Maria Rosa do Espírito Santo. Pais de 
1.1.4.1 – Gilberto n. 07.12.1894 em Pão de Açúcar.  
1.1.4.2 – Silvia Adhalia, n. em Pão de Açúcar  30.4.1889, f. 22.10.1889.  
1.1.5 – Antonia Rosa Duarte de Albuquerque, n. em 1874 em Pão de Açúcar.   
1.1.6 – Felismina Duarte de Albuquerque, n. em 1873 em Pão de Açúcar.  
1.1.7 – Eugenia Duarte de Albuquerque, n. 1872 em Pão de Açúcar.  
1.2– Teresa Duarte de Albuquerque n. 1822, c.c  Bento Vieira . Pais de:  
1.2.1 - Leopoldino Duarte de Albuquerque; 
1.2.2 - Liberalina Duarte de Albuquerque 
1.2.3 - Antonia Rosa Duarte de Albuquerque;   
1.2.4 - Francisco Duarte de Albuquerque;
1.2.5 - Eugenia Duarte de Albuquerque;
1.2.6 - Jose Ignácio Duarte de Albuquerque; 
1.2.7 - Manoel Vieira;   
1.2.8 - Ana Joaquina Duarte de Albuquerque.  
1.3– Matilde Duarte de Albuquerque.  (uma das filhas de Manoel Duarte de Albuquerque foi casada com Francisco Rodrigues de Mello, decerto não foi esta, citada como uma das fundadoras da Igreja Presbiteriana Independente de Pão de Açúcar, mas com o nome de solteira.).  
1.4– Ana Duarte de Albuquerque (seria esta a que foi c.c. Francisco Rodrigues de Mello)  
1.5– Esperidião Duarte de Albuquerque n. 1833, c.c  Maria Rosa dos Prazeres, filha de Eufrásio José de Moraes (agricultor em Entremontes) e Maria Rosa dos Prazeres  (Brandão & Veiga, uma das muitas sobrinhas do referido Anacleto de Jesus Maria Brandão); Pais de:  
1.5.1– Emenergildo Duarte de Albuquerque n.1862 c.c Felismina Corrêa Leal, n. 1866.  
              1.5.2– José de Freitas Duarte de Albuquerque n. 1869/f. 1892 
1.6– Clementino Duarte de Albuquerque, de quem sua mãe era a sua tutora em 1858.  
1.7– Nicácio Duarte de Albuquerque. 
1.8 -Deodato José de Albuquerque c.c Luzia  Maria do Espírito Santo, já estava falecido em 1858.  
 1.8.1 – Rita (Duarte de)  Albuquerque, herdou terras Tororó   
 1.8.2 -  Pedro (Duarte de Albuquerque) herdou terras do Tororó 
1.8.3 - Francisca (Duarte de Albuquerque) herdou terras do Tororó 
1.8.4 - Pacifico (Duarte de Albuquerque) herdou terras do Tororó 
Em síntese, esta é a ligação dos Duarte de Albuquerque com os Rodrigues Delgado e com outras famílias pioneiras da região como os Brandão, os Veiga, os Rodrigues de Mello,e os Moraes. De cada uma delas, e muitas outras, pretendemos voltar  a falar.    
 FOTO DOCUMENTO 1  




TRANSCRIÇÃO DOC 1 
Nº 196. Aos quatro dias do mês de março do ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e cinquenta e oito nesta Villa e Freguesia de Pão de Assucar em casa de minha residência, compareceu perante mim António Duarte de Albuquerque. Declarando ser possuidor de dois exemplares, segundo a lei de regulamentação das Terras Públicas número mil trezentos e dezoito, de trinta de janeiro de mil oitocentos e cinquente e quatro, que possui nesta freguesia no lugar denominado Totoró, uma posse de terra no valor  de trinta mil, oitocentos e quarenta e três reis, que houve por herança do seu finado pai Manoel Duarte de Albuquerque, como consta do inventário, as quais aferi para registrar. E nada mais disse e concluida por esta forma a presente declaração, numerados e rubricados por mim dois exemplares entreguei ao dito António Duarte de Albuquerque um dos exemplares ficando outro em meu poder nas conformidades de respectivo regulamento, do que para constar ....este registro no que me assino. Pão de Assucar, 4 de março de 1858. O vigário António José Soares de Mendonça. 
FOTO DOCUMENTO 2 



TRANSCRIÇÃO DOC 2 
Nº 194. Aos quatro dias do mês de março do ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oitocentos e cinquenta e oito nesta Villa e Freguesia de Pão de Assucar em casa de minha residência, compareceu perante mim António Duarte de Albuquerque. Declarando ser possuidor de dois exemplares, segundo a lei de regulamentação das Terras Públicas número mil trezentos e dezoito, de trinta de janeiro de mil oitocentos e cinquente e quatro, que possui nesta freguesia no lugar denominado Lagoa de Pão de Assucar uma posse de terras com seus competentes fundos, que lhe foi doada, como dote, por seus sogros o finado Bento José Rodrigues Delgado e Anna Theresa de Jesus no valor de cem mil reis, como consta do inventário, a qual aferi  para registrar. E nada mais disse e concluida por esta forma a presente declaração, numeradas e rubricados por mim dois exemplares, entreguei ao dito António Duarte de Albuquerque um dos exemplares ficando outro em meu poder nas conformidades de respectivo regulamento, do que para constar  abri este registro no que me assino. Pão de Assucar, 4 de março de 1858. O vigário António José Soares de Mendonça.


terça-feira, 25 de abril de 2017



DO ARRAIAL DO PORTO DO ARMAZEM AO POVOADO DE ENTREMONTES
Seus Antigos Moradores e o fim de uma lenda imperial.

Maria Graças Feitosa Alves

PORTO DO ARMAZEM
Entre as antigas vilas, e hoje cidades alagoanas de Pão de Açúcar e Piranhas, ribeirinhas do São Francisco, na altura da antiga légua 342 do majestoso rio, na barra da ribeira do Capiá (anteriormente ribeira dos Cabaços ou do Armazém), defronte de um grande serro de pedras vermelhas e lascadas, num de seus pontos de maior beleza natural, está edificado sobre uma restinga de cascalhos, aos pés dos morros imediatamente atrás, em terras de pouca planície, e abafada entre montes, o arraial pequeno e de pouca importância desde sempre, o hoje povoado de Entremontes. [1]
A ribeira do Capiá não é perene, seu leito só surge por ocasião das grandes chuvas de janeiro que abastecem as suas nascentes que ficam para o Norte, nos limites de Alagoas com Pernambuco.  No entanto, sendo um afluente do São Francisco, foi um fator importante da natureza para desenvolver o povoamento daquele sertão, já que diversos criadores de gado e agricultores se estabeleceram ali, ao longo dos anos e de seu curso. 
Já as terras das margens baixas do rio São Francisco, pela facilidade do acesso fluvial, foram sempre de uma grande vantagem aos ribeirinhos e sertanejos, e por isso, acharam os antigos, que antes do encontro dos dois rios, aproveitando um grande rochedo que se projeta para dentro do rio, e que serve de encosta para as embarcações, fosse este o local entre montes, o propício, e o escolhido para um porto onde; os barcos, canoas e até as chatas ancoravam”, na faina de carrego e descarrego demercadorias e produtos do lugar e das diversas partes da província de Alagoas e do Brasil, e até do exterior. [2]
Os “Alves Feitosa”, de antiquíssima passagem por Penedo e pelo Rio São Francisco, e que dali partiram para todo o Nordeste[3], e os “Gomes de Sá”, descendentes de David Gomes de Sá, o irmão do Capitão-mor Antonio Gomes de Sá, que foi procurador da opulenta e poderosa Casa da Torre, de Garcia D’Ávila, e Comandante Geral da Capitania de São Francisco. 
Chegaram à região por volta do fim do século XVII e o princípio do séc. XVIII. Assim estes seriam alem de grandes criadores de gado, os primitivos proprietários das terras da região do futuro Porto do Armazém. 
A vila, hoje cidade da Mata Grande, por sua vez, era então, o povoado mais próximo e importante, como freguesia, e sede da comarca. Sem ser ribeirinha, (está estabelecida já no alto sertão), em agradável serra, bem servida de nascentes e fontes de água. Era das mais antigas vilas da região e lá era o local onde vivia a família Brandão.
OS BRANDÕES
Não sabemos as origens dos Brandões, antes de estabelecidos na Mata Grande. Indícios há que seriam oriundos de Sergipe.
Mas antes, ainda no século XVIII, já existiam em Pernambuco os mais antigos deste apelido; o capitão Antonio Malheiros Brandão, natural de Braga, que teve muitos bens e outras fazendas de gados, e era nobre, no dizer de Borges da Fonseca. 
Serviu a câmara de Goiana, e casou com Dona Ana de Lima.[4] E também Francisco Malheiros Brandão, senhor de uma sesmaria que requereu em 1680, e que “começava das cabeceiras do "Rio-Grande", ente norte e sul, prolongando-se pelo oeste entre os rio Pajeu e o riacho Panema Grande, confrontando com terras do coronel Francisco Dias da Silva”. [5]
Na Mata Grande os primeiros que lá encontramos são os que procedem de Antonio Manuel de Jesus (Brandão) e Josefa Maria de Assunção, casal tronco de uma muito extensa família sertaneja, que inclui também um ramo notável em Viçosa.
Anacleto de Jesus Maria Brandão era um dos filhos do casal. Ele nasceu em 13 de julho de 1798 na Mata Grande e casou em 24 de novembro de 1810, na Capela da Mata Grande, então filial da freguesia de Tacaratú (PE), com dona Maria Francisca da Conceição, filha do português Manoel Ivo dos Anjos e Alexandrina Maria. Tiveram de acordo com seu testamento, somente filhos homens.
No ano de 1841 ele teria adquirido terras junto ao referido porto da margem do Rio São Francisco, na altura da légua 342, e para ali se transfere com a família, em busca de um melhor local para comercializar suas mercadorias. O chefe da família já tinha idade, mas os filhos eram todos ainda jovens. Eles aí já encontram algumas casas, e constroem para guardar as mercadorias um armazém, que passa a denominar o novo local; o Porto do Armazém.
O Tenente Coronel Anacleto Brandão, com “gênio lidador e incansável”, impulsionou o progresso do lugar, construindo outras casas. Terminou com um seu filho, o padre Mathias, e mais alguns donativos dos outros filhos, e alguns particulares, a grande e elegante capela de Nossa Senhora da Conceição, (que em seu modesto início, o templo foi uma promessa de um devoto restabelecido do cólera-morbo) e o cemitério do arraial. 
Por decreto de 1866 foi nomeado Tenente Coronel Chefe de Estado do Comando Superior da Guarda Nacional.  Ele encaminhou bem três dos seus filhos nos estudos, um foi médico, outro padre e outro advogado. Ele foi grande fazendeiro, proprietário de muitas terras, e possuía uma movimentada casa comercial, exportadora de couros, solas e peles, que depois de sua morte foi comandada por seu filho solteiro, o Major Francisco Henrique Brandão.
No ano de 1859, no dia 22 de outubro, as 3.1/2  horas da tarde, Anacleto Brandão recepcionou para um rápido jantar em sua casa, o Imperador Dom Pedro II, que pelo Rio São Francisco voltava da visita que fizera a cachoeira de Paulo Afonso. O imperador anotaria em seu diário pessoal, que no povoado “jantamos aí na casa de um (sic) Anacleto Brandão cuja família é quase tudo nesta povoação, sendo um dos filhos o capelão, outro o médico, e o outro oficial da Guarda Nacional, tendo agora o médico pedido 50$000 por dia ao Presidente da Província para cuidar dos doentes de Piranhas de Baixo, e as quatro (horas) fomos ver a capela...”.[6] 

Por esta acolhida ao Imperador, ele foi condecorado com a Ordem da Rosa. A visita durou somente cerca de uma hora e meia em Entremontes, já que ás 17 horas da mesma tarde, largou o vapor Pirajá, com Dom Pedro II a bordo, que pernoitou em Pão de Açúcar. Um dos jornalistas que acompanhou o Imperador informaria também, que ali em Entremontes, “predominava uma família cujos oitos membros se auxiliavam reciprocamente, cada um com uma profissão diversa”. [7]
Falecido em 30 de janeiro de 1871, o velho patriarca Anacleto Brandão, com fama de muito honrado e de bom pai de família, foi sepultado no altar mor da capela, a mesma que construiu erguida por detrás das casas do arraial, e com a fachada virada para o rio.[8] 
Na época quando faleceu, o povoado que em 1841 contava 46 casas, já alcançava mais de 100 casas, sendo a dele assobradada. Habitavam ali no arraial, mais de 300 pessoas, e dentre estes, muitos eram seus parentes. 
O local já possuía escola de primeiras letras para meninos, e outras casas de comércio, que prosperavam entretendo comunicações com os povoados vizinhos, e fazendo suas provisões no Penedo e principalmente na Bahia”. [9] Entretanto, o Imperador anotaria também em seu diário, que a loja de seu hospedeiro, rendia por ano entre 300 e 400 contos, e que o comercio local era menor do que o de Piranhas.
Boa parte destes moradores de Entremontes procedia também da vila da Mata Grande.  Dentre estes podemos lembrar as famílias de Manoel Martins Lisboa e Clara Maria da Luz, Manuel de Aragão, Eufrásio Jose de Moraes e Maria Rosa dos Prazeres (Brandão e Veiga), Manoel Inocêncio e Caetano Donato da Veiga, Caetano de Sá e Brígida Inácia, Pedro Antonio de Jesus e Joana Vieira, Antonio Fernandes Bezerra, Manoel Cipriano de Sá e Jacinta Maria da Soledade, Francisco Manoel da Veiga e Maria Rodrigues da Soledade, Bento Rodrigues Delgado e Ana Teresa de Jesus (Brandão), Manoel Felipe Santiago e também o alfaiate do Anacleto e do povoado, Alexandre Torquato de Carvalho.
Certamente estariam alguns destes casais e familiares, no meio do povo que com o maior entusiasmo se manifestou, no dia 18 de outubro, correndo pela margem do rio, a saudar com vivas e foguetes, quando as 10 ¼ da manhã, passou defronte da vila, o vapor Pirajá a conduzir o Imperador. Reparou o próprio Dom Pedro II, que mulheres dessas paragens, usavam camisas de crivo. 
E notaram os outros viajantes, que os homens da região do Rio São Francisco eram todos de estatura de regular, mas que as mulheres do sertão, de Penedo para cima, com a exceção de uma ou outra senhora mais distinta, as filhas daquelas paragens usam exclusivamente de xales vermelhos, de sorte que apinhadas nas praias a saudarem o monarca ou correndo sobre os rochedos para virem encontra-lo simulavam listras movediças de púrpura que se estendiam. [10]    
ENTREMONTES
Os filhos do velho Anacleto, também foram agricultores na região, e grandes proprietários de terras e gados. Dentre estes, até o Padre Mathias José de Santana Brandão foi também senhor de grandes extensões de terras. Nascido em 1821 ele faleceu em 1869, sendo sepultado na capela, (hoje) ao lado dos pais. Porem, muito antes de morrer, em 20 de janeiro de 1858, quase dois anos antes do Imperador passar pelo povoado, o padre Mathias Brandão levou ao registro paroquial,[11] as suas terras: uma propriedade chamada de Entremontes, que houve por compra a Elias José da Fonseca, jogando por terra a lenda muito mal contada, e que é aqui transcrita exatamente conforme corre de forma incorreta, entre os descendentes do Coronel Anacleto de Jesus Maria Brandão e o povo da região:

Registra a historia oral, transmitida de geração para geração, que o nome dado ao vilarejo foi uma homenagem feita por Dom Pedro II quando por lá passou, em demanda a Paulo Afonso. Ele achou o lugarejo muito bonito por estar encravado entre montes, tendo o rio a separar Alagoas e Sergipe. Ordenou então que fosse registrado o fato de que a partir daquela data, o lugarejo seria batizado de Entre os Montes, que hoje é Entremontes, pertencente ao município de Piranhas”. [12]
Esperamos assim, além de termos lembrado a história da pitoresca Entremontes, seu morador principal e alguns de seus vizinhos, termos contribuído para desmitificar a lenda de que teria sido o Imperador, quem batizou e alterou o nome do antigo Porto do Armazém. 





[1] HALFELD, Fernando. Relatório Concernente à Exploração do Rio de S. Francisco, desde a Cachoeira de Pirapora até o Oceano Atlântico. In Atlas e Relatório Concernente à Exploração do Rio de S. Francisco, desde a Cachoeira de Pirapora até o Oceano Atlântico durante os anos de 1852 a 1854. Rio de Janeiro.
[2] SILVA, José Calixto da. Manuscrito Inédito sobre a Família Brandão. Gentileza de Etevaldo Amorim.
[3] MACEDO, Heitor Feitosa. Família Feitosa: Origem.
[4] BORGES DA FONSECA, Nobiliarquia Pernambucana.
[5] Plataforma Silb: http://silb.cchla.ufrn.br/ (sesmarias)
[6] D. Pedro II – Diário da Viagem ao Rio São Francisco, Anuário do Museu Imperial, 1949.
[7] Silva, José Vieira de carvalho e , Memórias da Viagem de S.S. M.M. I.I., Revista do IHGB Tomo 22 – 1859.
[8] Brandão, Agostinho de Neville. Genealogia da família. Manuscrito Inédito. 1859.
[9] Silva, José Vieira de carvalho e , Memórias da Viagem de S.S. M.M. I.I., Revista do IHGB Tomo 22 – 1859.

[10] Silva, José Vieira de Carvalho e , Memórias da Viagem de S.S. M.M. I.I., Revista do IHGB Tomo 22 – 1859.
[11] Registro Paroquial de Terras – Pão de Açúcar. 1857. “Aos dezoito dias do mês de janeiro de mil oitocentos, digo, do ano do Nascimento do Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e cinquenta e oito, nesta Vila e Freguesia do Santíssimo Coração de Jesus de Pão de Açicar, em casa de minha residência compareceu perante mim o Padre matias José de Santana Brandão, declarando-me por meio de dois exemplares, na conformidade do, digo, segundo a Lei e regulamento das terras públicas número mil trezentos e dezoito, de trinta de janeiro de mil oitocentos e cinquenta e quatro, que possui por indiviso nas terras do Entremontes, uma posse comprada a Elias José da Fonseca, e nada mais disse. E concluida por esta forma a presente declaração, numeradas e rubricadas por mim ditos exemplares, ficando o outro em meu poder na conformidade do respectivo Regularmento. Do que para constar abri este registro, em que me assino. Pão de Açúcar, 15 de janeiro de 1858, Vigário Antonio José Soares de Mendonça.
[12] Dias, Maria das Graças Ataíde. Na Correnteza do Rio, Ideia – João Pessoa, 2008, pg.19.

MUSEU DARRAS NOYA